Carlos Azevedo

Repórter de texto oriundo da revista Quatro Rodas, foi um dos pioneiros da REALIDADE, na qual esteve até 1968. Antes de chegar à Editora Abril, passou por veículos como O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo e O Cruzeiro.

 

 

Eram dois repórteres, um de texto e um de imagem. O cara via a reportagem, ele já tinha conversado sobre o que era, então os dois viam a sua matéria e era a mesma matéria. Essa combinação acontecia com muita naturalidade, entendeu? Sem necessidade de muito ficar lá discutindo isso e aquilo. Falava, pô, ali tem uma foto boa e tal [...] uma situação interessante e tal que você falava para o fotógrafo e ele ia ver, “ah, então vou ver”. Mas, muitas vezes o repórter veio e o fotógrafo não reparou e tal.

 

O David Zingg, o George Love, A Claudia Andujar, a Maureen Bisilliat e tal, eles trouxeram essa qualidade e esse olhar que os fotógrafos americanos já estavam desenvolvendo isso há algum tempo [...]. E é interessante. Agora, eles não são diferentes dos fotógrafos brasileiros, pelo menos dos que trabalharam em Realidade. Tinham também a mesma preocupação, mesma abordagem e etc.

 

Essa coisa de afinidade entre fotógrafo e repórter, no caso, eu tinha muita afinidade com o Mamprin pra trabalhar. Éramos duas pessoas de gênio mais explosivo, os dois, mas raramente a gente explodia um com o outro. Ele tinha as dele, eu tinha as minhas.

 

Ai a gente vai ver as fotos, a gente via as fotos e tal, junto com o fotógrafo, ah, essa é boa, essa é boa... Em geral os fotógrafos ficavam muito cabreiros, “as melhores fotos, não escolhem”, o Mamprin ficava muito bravo, “[...] essa grande foto”. Não essa foto, porque ai, tem ai a visão do editor também, né? Do interesse mais geral, a foto que serve mais para o esclarecimento da matéria.

 

A gente escolhia quando tinha que liberar meia dúzia de foto, dez fotos numa matéria e tal. De certo também tinha, de alguma maneira ia acolhendo as sugestões e tal. E o fotógrafo sempre reclamava. E ai montava, montava os títulos e as legendas e tal. Isso era muito, muito feito várias pessoas juntas ali, junto com os editores [...], porque a questão das fotos também tinha, “essa foto aqui na gráfica não vai ser legal e não sei o que, então se for ela vai ter problema e tal.” Então tinha que ter esse outro aspecto que aparecia muito ali. E o Eduardo Barreto, que já faleceu também, que era uma figura, que foi uma chave, era muito bom no sentido de trabalhar com a gente, ouvia o que os outros estavam falando. Não havia muita imposição de ninguém, entendeu? Era engraçado porque isso era um resultado muito satisfatório, muito prazeroso, era gostoso porque a gente chegava concordando juntos, e eram boas soluções.

 

O Butsuem não era de muito falar, né, o japa, era muito técnico. Ele era um cara que vinha de laboratório, trabalhou muito tempo no laboratório do Estadão, com outro fotógrafo que era chefe do laboratório que era um cara muito bom. E ele, o Butsuem, desenvolveu muito isso tecnicamente [...].

 

Essas coisas acontecem entre profissionais, acontecem muito naturalmente, entendeu? Então a gente tinha muita experiência. Não tem muita conversação assim não, sabe? Um olha pro outro, é aqui e tal, vamos lá, olha a entrevista ai o cara ta falando isso, olha, o ângulo, esse é muito bom, vamos aproveitar isso e etc. E ai tem o caminho dele próprio, depois eu ia ver o trabalho dele, e eu ia fazer o texto. Eu não via as fotos dele antes de fazer o texto, eu fazia o texto dai ia ver as fotos. [...] Ia fazer o casamento das coisas. E em geral tava ali, tudo que a gente tinha escrito e tal estava ali expresso em termos de fotografia.

 

O que foi desenvolvendo ali, é que, há um caminho próprio para o fotógrafo ensaísta também, ele faz uma reportagem, pode até nem necessariamente depender, necessitar texto. Houve alguns ensaios na própria Realidade que mostravam isso, só tinham alguma legenda e tal [...]. Criar certas metáforas imagísticas ou símbolos, entendeu? Situações simbólicas que representam muito mais do que a própria foto. No jornalismo em geral, a foto é a foto e aquilo é um fato. [...] agora não, ali ela tem uma coisa que permite você olhar para aquilo e ter um entendimento mais complexo, mais, isso aqui significa alguma coisa a mais.

 

AZEVEDO, Carlos. Carlos Azevedo: depoimento [13 mar. 2013]. Entrevistadores: Luís Celestino de França Júnior e Marcelo Eduardo Leite. São Paulo SP, 2013. Entrevista concedida ao Projeto Realidade: o fotojornalismo (autoral) de uma revista.