Audálio Dantas

Repórter de texto, atuou entre os anos de 1969 e 1974 na revista REALIDADE. Anteriormente havia passado pela revista O Cruzeiro como redator e chefe de reportagem e em REALIDADE atuou como redator e editor.

 

 

A maior liberdade de expressão, digamos assim, tanto de imagem como de texto, foi na revista Realidade, que era uma proposta absolutamente avançada. O Cruzeiro era uma revista com a marca de grande sucesso desde os anos 50, principalmente nos anos 50, porque era praticamente o único veículo de expressão, de circulação nacional, com correspondentes no país inteiro e tendo em alguns momentos a presença de repórteres nos cinco continentes. Isso aconteceu, uma coisa hoje impossível de acontecer.

 

O Cruzeiro, numa boa medida, e a revista Realidade, demonstraram que o trabalho do fotógrafo é tão importante, e às vezes mais importante, do que o do texto. Porque antes havia essa coisa elitista, de que o sujeito que vai fazer o texto é o intelectual e o fotógrafo é aquele apenas que vai ilustrar aquela história. Na revista Realidade isso não acontecia. O fotógrafo era um criador, era um repórter da imagem, e isso a gente vê de maneira muito forte no Luigi Mamprin, trabalhei com ele várias vezes, na Maureen Bisilliat [...].

 

Antes da Realidade eu já conhecia o Mamprin. Na Folha, eu conheci o Mamprin na Folha. No laboratório da Folha. Ele passou pela O Cruzeiro também. Ele foi um dos meus mestres, o Luigi Mamprin. Ele era fotógrafo, ele foi o meu mestre, porque ele tinha uma cultura muito vasta, ele fotografava com conhecimento de causa, digamos assim. Não era um sujeito que catava aleatoriamente uma imagem.

 

Geralmente essas matérias a gente vivia, ia sempre junto. Nunca um foi lá fotografar e o outro foi ver depois. Ia sempre junto, porque a informação tinha que ser complementada pela imagem, a informação textual.

 

Não podia ser um fotógrafo comum, tinha que ser um fotógrafo com visão, com cultura suficiente para entender o que se pretendia com aquela matéria. Aliás, fazendo um parêntese aqui, essa é uma das matérias que demonstram como você podia mostrar que o país estava em situação de penúria, isso é nos anos 70, enquanto a ditadura dizia que esse é o país que vai pra frente, aquela coisa toda. E você fazia uma matéria dessa, você mostrava o contrário, mostrava justamente o contrário.

 

A finalização das matérias era... algumas se transformavam em verdadeiras batalhas, porque (risos) havia um departamento de texto, uma editoria, melhor dizendo, de texto, que se o sujeito escorregasse no texto, eles não tinham dúvida, eles iam discutir. Em vez de alterar o texto, discutia com o autor.

 

Os fotógrafos brigavam pelas suas fotos. Se, por acaso, o editor escolhesse uma foto que achava bonita, neste ou naquele sentido, o fotógrafo dizia, o Mamprin principalmente. Ele, quando ele ficava bravo, ele gaguejava: ‘eu quero aquela foto’. Aí ficava uma briga, porque na verdade a autoridade do editor tinha que prevalecer, no final. Mas isso não acontecia, porque discutia-se muito. E se chegava a um lugar comum, a um senso comum, melhor dizendo.

 

E, no caso de Realidade, você vê grandes imagens que parecem que são arrumadas, mas não, ali é o olho do fotógrafo, é o olho do fotógrafo que é capaz de registrar o momento, e é capaz de buscar a luz ideal, ou mesmo incidentalmente, colher aquela flagrante com aquela luz, que é fundamental. Eu sou mais por essa fotografia, por essa fotografia, digamos, que retrate a verdade, que ele está ali diante dele. Isso não impede que se colha efeitos importantes.

 

Se partiu do ponto de vista de que a imagem era parte integrante, parte da informação, parte não, era a informação! A imagem, a fotografia, não era apenas uma ilustração. Aquilo que eu disse no início. Então, esse texto criativo, esse texto literário, também valia para a fotografia, na medida em que ela interpretava o tema.

 

DANTAS, Audálio. Audálio Dantas: depoimento [15 abr. 2013]. Entrevistadores: Carla Adelina Craveiro Silva e Marcelo Eduardo Leite. São Paulo SP, 2013. Entrevista concedida ao Projeto Realidade: o fotojornalismo (autoral) de uma revista.