José Carlos Marão

Fez parte da fase inicial da REALIDADE, atuando como repórter entre 1966 e 1968. Posteriormente, em meados de 1969, retorna à revista, ficando ali até 1971. Após a passagem por REALIDADE, segue para outra revista do grupo, Quatro Rodas.

 

 

Mas o fato é que, quando decidiram fazer uma revista mensal, ficou uma discussão muito grande se seria uma revista de serviço, se seria uma revista para um público sofisticado, tipo a New Yorker, se seria uma revista de reportagem, acabou vingando a ideia da revista de reportagem. [...] E essa discussão toda demorou até janeiro ou fevereiro, sei lá. Enquanto isso a gente ia fazendo matérias para uma revista que você não sabia direito o quê que...

 

Era completamente diferente, completamente diferente. A Realidade, primeiro que as pautas eram muito discutidas e era muito voltada pro texto, pelo menos, nas discussões que a gente tinha. Em paralelo se discutia muito as fotos, embora eu nunca tivesse participado muito, mas havia uma preocupação até em produzir fotos, não em falsificar, mas em produzir.

 

Eu me lembro que es estava com o David Zingg, estava fazendo uma matéria sobre vinho no Rio Grande do Sul, fiz lá o que tinha que fazer, andando com o Zingg lá, ai ele falou pra mim, “vou ficar aqui pra fazer umas fotos, pode ir embora”. Dei graças a Deus, né, eu vou embora e ele ficou lá. Rapaz, ele produziu, eu acho que ele chamou, contratou, sei lá o que ele fez, ele produziu fotos ótimas com aqueles imigrantes, descendentes de imigrantes que moram ali na região de Caxias do Sul e tal. Ele improvisou estúdio, ele fez de tudo. Se eu estivesse lá, eu não ia ter paciência pra ajudar, não ia ter...

 

Tinha o projetor de slides, o fotógrafo fazia já uma pré-seleção, emoldurava tudo aquilo em slides e se fazia uma projeção de fotos. Então isso durou muito tempo, quer dizer, logo no começo da Realidade nem o projetor tinha, era na lupazinha ali na mesa de luz. Mas, logo que chegou o projetor de slides, pelo menos enquanto eu estive lá, pelo menos ai na primeira e na segunda fase, a gente, o repórter participava da projeção, assistia aquela projeção de slides até para falar sobre personagens ou situações ou lugares, tinha que falar o quê que era aquilo, o que não era, né? Então o repórter participava.

 

Sim, havia total liberdade de criação, não havia, eventualmente não havia total liberdade de pôr isso no papel. Havia uma espécie de auto censura, principalmente na fase do Solari. Mas se você estivesse lidando com assuntos sem implicação política, total liberdade de criação havia sim e inovava mesmo, inovava bastante.

 

Os fotógrafos participavam desse processo coletivo, então a relação [...] os fotógrafos estavam nesse processo. E quando eu falo criação ai eu estou me referindo muito mais à pauta, muito mais à pauta do que a finalização.

 

Os textos tinham que ser descritivos, porque a foto não ia reproduzir aquilo que você queria dizer no texto e tal, nem sempre. [...] Então as matérias tinham que ter movimento também, tinham que ter ação. Então, muitas das aberturas de Realidade, mas aberturas de texto, a gente escrevia descrevendo uma cena, uma coisa com ação, com movimento. Isso tudo ajudava, a forma ajudava a matéria a ficar não perecível, ou seja, era literário. A foto tinha que acompanhar isso ai. Sempre acompanhava, acompanhava.

 

Eu não me lembro de ter discutido questão de prazo na Realidade, era sempre folgado. Mesmo em relação aos jornais da época, as revistas da época, nosso prazo era mais folgado. Em relação a hoje então, nem se fala [...].

 

MARÃO, José Carlos. José Carlos Marão: depoimento [17 abr. 2013]. Entrevistadores: Carla Adelina Craveiro Silva e Marcelo Eduardo Leite. Água de São Pedro SP, 2013. Entrevista concedida ao Projeto Realidade: o fotojornalismo (autoral) de uma revista.