Lana Nowikow

Nascida na Rússia, começou como secretária da redação da Editora Abril, mais especificamente da revista Quatro Rodas, vindo a ser jornalista em REALIDADE, na qual trabalhou até 1967. 

 

 

Nossa, era uma coisa assim de, era irmandade mesmo, né? Tinha que ter uma identificação, mas tinha assim, tinha que ser de sangue mesmo. [...] Pode imaginar, né? O Mamprin sai numa viagem com o Azevedo e fica quarenta dias enfiado no Xingu. Então, ali tem tudo, tudo, se não é tudo [...] Então, se não houvesse empatia entre o fotógrafo e o repórter...

 

O fotógrafo não só fotografava, se metia em tudo, redigia, ajudava, anotava, sugeria, palpitava na entrevista, pelo menos todos com quem eu andei [...].

 

[...] sempre houve muita integração entre repórter e jornalista por isso que as coisas davam certo. Nunca, não podia ter, “desse eu não gosto”, ou “com esse eu não quero sair”, não podia ter disso. Lógico que a gente escolhia, a gente, impondo, a gente, mas era, na verdade, era, as duplas eram escolhidas quando se identificavam mais para aquele tipo de matéria, né?

 

De igualdade, pode dizer, com certeza, que era, que era de igualdade. Inclusive, quando a matéria era pautada, os fotógrafos também participavam das reuniões de pauta, e muitas das sugestões que eram eles que faziam, tinham vivências anteriores e tal, porque era uma revista que não tinha igual, muita gente tinha vindo de O Cruzeiro, Manchete [...] tinha essa, essa... eram pessoas especiais sempre.

 

Estavam sempre na rua, o espaço entre, porque iam, mais ou menos, todos ao mesmo tempo pra rua, não é? Porque se pautava, se fechava ao mesmo tempo, daí ia pra lá. Eles trabalhavam, eles colaboravam muito na edição, né, das fotos e ai depois, imagina, não era digital. Tinha que, né, mandar revelar, eles ficavam em cima da revelação, e ai vinham os contatos, e ai escolhia os contatos.

 

Aquelas sessões de escolha de foto, com aqueles slides todos lá era coisa que levava dias. Não, não deu, não... até escolher uma foto, duas fotos, três fotos e depois as aberturas e tal, o fotógrafo participava muito da diagramação também, era muito democrático, e acho que era por isso que funcionava bem.

 

[...] o George Love, que foi um super fotógrafo também, assim, a gente ficou muito ligado, o Sérgio (de Souza) e ele viajaram juntos e eu também viajei, viajei com Claudia e ele viajou com o George, eles foram fazer uma matéria de preconceito racial [...] Nossa! Figura também, morreu numa pobreza, uma forma assim quando a gente soube, soube que ele tava assim muito doente, ele sofria de asma e tinha um problema, tinha bronquite, tinha um problema crônico. E estranhamente, São Paulo era a cidade onde ele se dava melhor [...] não sei o porquê mas ele se sentia melhor de saúde em São Paulo, e ele morreu de uma forma assim, bem abandonado mesmo. Era um super fotógrafo, fora que era uma pessoa gentilíssima, era um negro altíssimo, muito delicado, assim, uma pessoa muito sensível. E eles formavam uma dupla fantástica.

 

A gente queria mostrar o Brasil de verdade, né? Aquele Brasil... Bom, o ufanismo apareceu um pouco depois, né? Na verdade eu acho que a Manchete e a O Cruzeiro foram, foram... acho que foram assim, a semente, a experiência que alguns repórteres tiveram trabalhando nessas duas revistas, eles viam muita coisa que, que não era interessante sair nesse tipo de revista, pro público, né? Revista semanal, só de fotografia, Fatos e Fotos era uma outra também. Mas se via muita coisa que se queria mostrar, e de um jeito inteligente e tudo, mas que mexeu, que mexeu com o comportamento de, pelo menos, seiscentos mil leitores, mexeu.

 

NOWIKOW, Lana. Lana Nowikow: depoimento [18 maio 2013]. Entrevistadores: Leylianne Alves Vieira e Marcelo Eduardo Leite. São Paulo SP, 2013. Entrevista concedida ao Projeto Realidade: o fotojornalismo (autoral) de uma revista.