José Hamilton Ribeiro

Fez parte do primeiro período da revista, permanecendo nela até 1968. Alguns meses depois, em meados de 1969, retorna à REALIDADE, ficando na equipe até 1974, pouco antes de ser transferido para a revista Veja.

 

 

Você trabalhava com grandes fotógrafos, mas os repórteres não eram principiantes. Então, o diálogo era outro. Mais do que na Folha, Realidade permitia duas leituras das reportagens. A leitura do texto e a leitura da fotografia. E elas não eram encavaladas. Eram duas visões, duas visões muito diferentes. E, naturalmente, complementares, porque era o mesmo assunto. Mas, eram duas visões... E mais, nem sempre o fotógrafo estava ao lado do repórter, na Realidade. Nas entrevistas, nas buscas, eles tinham autonomia.

 

Naturalmente, tinha um esquema de discussão do repórter e do fotógrafo sobre a reportagem, na saída. Eventualmente, quando viajavam juntos, aí esse convívio, essa conversação, continuavam no dia-a-dia. Mas, às vezes até nem viajavam juntos. O assunto era tal, ia o repórter uma época e o fotógrafo ia outra. Separados. Eles só iam se encontrar nesse momento de criação coletiva, na edição, da qual nem sempre o repórter participava, nem o fotógrafo. Participava se estivesse ali na ocasião. Mas se estivesse envolvido em uma outra pauta, não estaria ali naquele momento e a rotina da revista não ia parar porque o fotógrafo não estava ali naquele dia.

 

Eu fui conhecer melhor o Zingg depois que terminou a revista, que a gente se encontrou em outras ocasiões aí, porque ele era uma figura, mas uma figura muito especial. Como eu disse, a gente, de certa forma, perante ele, se prostrava assim como fã, como fã... E nas reportagens que eu fiz com o Zingg, a gente não trabalhou junto. Ele tinha sua visão própria da pauta, que ia buscar suas linguagens próprias, pra expressar aquela pauta. E o repórter seguia a sua.

 

O Geraldo Mori não era europeu, não era americano, era brasileiro mesmo, paulistano. E, muito ansioso, muito, assim, ativo, muito esperto, ele era um fotógrafo acutilado.

 

Tem muita reportagem que foi ideia de um fotógrafo. Mas muitas! Pra citar uma ou outra, eu não lembro, mas lembro que era da dinâmica da equipe. Tinha alguns fotógrafos, por exemplo, o Mamprin, que era muito explicito, muito expansivo... O Mori, mas o Mori não tinha tanta cancha jornalística como tinha o Mamprin. O Zingg, o David Zingg... Nossa, esse pessoal tinha muita ideia, os fotógrafos... muito criativos.

 

Agora o processo de pauta, como era coletivo, uma vez escolhida a pauta, a autoria dela não contava mais. Quem que teve a ideia inicial, né? Porque a ideia geralmente era colocada numa roda e havia muita interferência e interação, muitas ideias, uma em cima da outra e, no fim, quem teve a ideia original desaparecia, e nem era o caso mesmo. Mas eu me lembro da grande participação dos fotógrafos: seja como sugestão de pauta, seja também como correção.

 

Às vezes pintava uma pauta ‘ah, vamos fazer uma reportagem assim, assado... não! não pode ser assim porque isso dá um preconceito aí... oh, é um clichê... isso aí... tem que olhar melhor isso aí que não é bem assim...’ A gente sentia que tinha um olho crítico, porque o fotógrafo tem essa característica. O fotógrafo, ele não perde tempo com a periferia do assunto, ele vai no foco, ele vai no ponto. Ele vai no ponto. Então, as observações deles eram muito precisas e muito profundas, nas reuniões de pauta.

 

A vivência é a palavra-chave na reportagem da revista Realidade, a palavra-chave. No sentido de que a reportagem não saia, não era publicada, a não ser depois da constatação de que o repórter e o fotografo vivenciaram aquele assunto. Não se fazia reportagem de ouvir dizer, nem por telefone. Tinha o testemunho do fotógrafo e do repórter, tinha o testemunho, tinha a vivência. Então, não saia nem uma linha, não se escrevia nem uma linha de alguma coisa que o repórter não tivesse vivenciado aquilo. Agora ali a vivência do fato, para transformar em reportagem, são duas visões diferentes: a do repórter e a do fotografo.

 

RIBEIRO, José Hamilton. José Hamilton Ribeiro: depoimento [14 abr. 2013]. Entrevistadores: Carla Adelina Craveiro Silva e Marcelo Eduardo Leite. São Paulo SP, 2013. Entrevista concedida ao Projeto Realidade: o fotojornalismo (autoral) de uma revista.