Mylton Severiano

Editor de texto, fez parte do primeiro grupo de REALIDADE, saindo em 1968 e retornando por curto período em 1969. Em 2013, publicou o livro Realidade - história da revista que virou lenda.

 

 

Ali se formou então um espírito, que eu chamo de espírito da colméia [...] porque como era tudo bom caráter, tínhamos o Paulo Patarra como o nosso líder natural, acabou se formando um grupo muito coeso, muito unido e muito fraterno. Amor, amor mesmo, amor de que os taumaturgos falam, Cristo fala, amai-vos uns aos outros, a gente se amava.

 

O Mamprin, o Luigi Mamprin [...] ele era um italiano muito briguento, que vivia reclamando de um lugar ao sol para os fotógrafos, “por que que o fotógrafo que vai lá e luta, passa necessidades lá, igualzinho o repórter e contribui para a reportagem com igual peso, por que que ganha menos, por que que é tão desvalorizado?” Mas eu acho que mesmo assim, mesmo com esse desconto ai, a revista Realidade deu, contribuiu para dar um status maior para o fotógrafo.

 

No caso dos fotógrafos eram escolhidos pelo mercado. Sabíamos que tinha um fotógrafo x na O Cruzeiro que era bom, “o Geraldo Mori, esse cara é bom, olha, o cara é bom e tal, chama ele”, vai chamando pela qualidade da produção dele. Entrevista, através de entrevista ou de inquirir quem conhecia, “você conhece o Mori?” “Conheço, trabalhei com ele na O Cruzeiro” “Que tal ele, é bom caráter? “Ah, esse é legal, esse é legal.” “E fulano?” “Esse ai não, esse ai não presta.” Então era boca a boca, valia para os fotógrafos a mesma regra do bom caratismo ou não. Se não fosse bom caráter não interessava, podia ter fotografias maravilhosas.

 

[...] mas o David Zingg, o Paulo Patarra foi assistir uma sessão dele, ele queimava, saia, disparava a foto clack, clack, clack, clack... fotografava sem parar. O Paulo conta que ele saia com uma câmera preto e branco e outra para cor, às vezes ele saía, no começo ele saía com uma câmera pra filme o preto e branco e o colorido, fotografava preto e branco e depois fazia uma ou duas fotos coloridas para o caso de precisar. E, que depois de ver o David Zingg trabalhar, queimar um filme ou dois filmes inteiros pra fazer um trabalho é que ele pressionou a Abril e conseguiu que se fornecesse mais, mais filmes, passasse a trabalhar, modernizar o esquema da fotografia, sem ficar aquela economia burra que eles chamavam.

 

A Life era um dos modelos que o Paulo (Patarra) tinha na cabeça; a Life, valorizar a fotografia. Tanto que a revista introduziu o ensaio fotográfico no país. A ideia do Paulo com certeza foi tirada, o ensaio fotográfico, todo número ter um ensaio, ele com certeza importou da Life.

 

O (José Carlos) Marão tinha esse método de fazer a reportagem primeiro e depois passar para o fotógrafo o que ele fez. “Eu entrevistei fulano, sicrano beltrana...” Ai o fotógrafo vai lá e faz a visão dele, ele sabe o quê que o Marão apurou, que o repórter apurou, sabe quais são os personagens principais que ele vai fazer necessariamente, mas não com uma determinação do repórter de texto, mas com a visão dele de imagem.

 

O cineminha que era depois, o fotógrafo voltava de viagem e era o cromo que passava em slides, projeção na parede branca assim, ai, dessa sessão participava até o office boy se estivesse ali na redação. Então era altamente democrático, na reunião de pauta todo mundo, o fotógrafo dava ideia de pauta, contribuía ai com a visão dele de imagem, de uma ideia fotográfica podia nascer uma reportagem.

 

Ainda mais hoje, nesse dia a dia, e nessas revistas que hoje não tem essa humanização ai, né? Os fotógrafos mais simplesmente documentam, entre aspas, documenta. Eles não se envolvem, não é? Não tem envolvimento emocional. Não estão nem ai, eles estão documentando apenas. Então esse toque do Mamprin ai, eu acho importante porque você, é aquilo que o Frei Betto diz [...] é o palmo mais adiante da aparência da Realidade. Você tem a aparência da realidade, você tem que estar além da realidade.

 

Você, na revista Realidade você tinha bastante tempo para fazer as matérias, você vivenciava aquilo, você conversava com as pessoas, sentia o drama delas. Você tem, o seu olho de fotógrafo vai realmente captar algo além da simples aparência da realidade, você vai entrar na profundência, como diz o Frei Betto.

 

SEVERIANO, Mylton. Mylton Severiano: depoimento [21 maio 2013]. Entrevistadores: Leylianne Alves Vieira e Marcelo Eduardo Leite. São Paulo SP, 2013. Entrevista concedida ao Projeto Realidade: o fotojornalismo (autoral) de uma revista.