Claudia Andujar

Nascida na Suíça, chegou ao Brasil em 1955, tendo começado a fotografar após realizar pequenas viagens para conhecer o país que a acolhera. Fez inúmeros trabalhos para a revista REALIDADE entre os anos de 1966 e 1971.

 

 

Bom, foi por causa dos Civitas (donos da Editora Abril), que acharam que seria interessante também eu conhecer, eventualmente, fazer coisas para a Realidade. Foi por causa disso. Bom, eu fui muito bem recebida. Comecei a fotografar. Agora, depois eu só fotografava para a Realidade. Eu fiquei muito feliz porque tinha um ambiente muito acolhedor, eram gente muito aberta. Os editores, enfim, toda a redação da Realidade. Eles me deram, assim, uma oportunidade de (risos) continuar minha pesquisa, em conhecer o Brasil.

 

Não era que o repórter tava ao meu lado, fazendo as entrevistas e me dizendo ‘faça isso ou aquilo, etc.’. Não tinha nada disso. Isso era uma maravilha. Além do fato que eu podia ficar fazendo a matéria o tempo que eu precisava. Eles me deram o filme que eu pedi e eu ia e fazia os trabalhos. Quando achava que eu esgotei o assunto, voltava, mostrava o que eu tinha feito, eles escolheram o que achavam que iam publicar e o resto ficava comigo. Está comigo até hoje. Então, eu criei também um acervo muito grande de fotografias. E, olha, não sei, foi a primeira e última vez que uma coisa dessas aconteceu. [...] Ah, sim, no fotojornalismo.

 

Mesmo depois, eu fiz uma matéria, por exemplo, para uma revista americana, mas o cara estava ao meu lado, dizendo ‘faça isso ou aqui, etc’. Isso... Essa liberdade eu só conheci na Realidade. Vou ficar grata à Realidade até o fim da minha vida.

 

Eu era conhecida por assumir pautas, enfim, reportagens, que eram onde estava difícil de chegar. Não, não to dizendo por causa da distância, mas, por exemplo, não sei. [...] Prostituição, sim. Aliás, a ideia de fazer a Prostituição veio da revista, mas eles sempre me pautavam para coisas que eram um pouco fora do comum. Aí eu fiquei, sempre, muito feliz com isso! (risos) Ah, o teatro rebolado. Não, mas isso também, foi uma ideia deles, tenho certeza. Mas, ah, eu gostava desse tipo de coisa. É o que mais fiz, como reportagem.

 

[...] o pessoal com quem eu trabalhava, que eram gente da esquerda, ah, bom, uns foram mandado embora pela própria Editora Abril, e outros saíram, aí eu também fui embora, não quis mais trabalhar no fotojornalismo ou, enfim, com a Editora Abril. Mas nunca mais voltei a trabalhar no jornalismo. Eu me dediquei aos índios Ianomâmi durante trinta anos! Eu tenho um trabalho enorme sobre eles. Mas, a primeira vez que encontrei os Ianomâmi foi através da Realidade.

 

Eu acho que não é de ter trabalhado como fotojornalista na Realidade que eu fiquei influenciada no meu trabalho de fotografia. É um pouco o contrário. Eu sempre procurei um trabalho autoral, quer dizer, eu sempre quis fazer em que eu acreditei. Continua assim. Então, à Realidade que ganhou com isso, sei lá como explicar isso, mas eu não mudei. Eu simplesmente abordei essas reportagens como eu faria para mim. Eu sempre vejo isso como... Na fotografia eu procuro entender o interior das pessoas. Isso é uma coisa... que, desde que comecei a fotografar, eu fazia, isso que me interessava.

 

O que foi escolhido, o que saiu na revista, ficou com eles. E o resto, ficou comigo. O que, também, eu acho que é uma coisa bastante excepcional. (risos) Normalmente, quando mandam alguém fotografar, ficam com tudo.

 

Bom, aqui tinha independência mas, como já falei, essa independência entre a fotografia e o texto era uma coisa corriqueira. Não era só para essa reportagem. Eu não sei. Existe outra revista que fazia esse tipo de coisa, de separar completamente a fotografia do texto?

 

ANDUJAR, Claudia. Claudia Andujar: depoimento [20 maio 2013]. Entrevistadores: Leylianne Alves Vieira e Marcelo Eduardo Leite. São Paulo SP, 2013. Entrevista concedida ao Projeto Realidade: o fotojornalismo (autoral) de uma revista.