Amâncio Chiodi

Fotógrafo brasileiro, atuou em REALIDADE entre os anos de 1969 e 1971, tendo anteriormente passado por veículos como O Cruzeiro e Folha de S. Paulo.

 

 

Ali eu era freelancer. E aí foi chocante, porque era uma coisa completamente... eu não imaginava que era assim, a independência, você saia pra fazer a matéria com o repórter, mas você fazia a sua matéria. E o repórter, normalmente você sai e o cara fala ‘oh, fotografa aquilo, fotografa aquilo’. Puta, ali rompeu com uma coisa totalmente diferente.

 

E, da mesma forma que o cara tá fazendo o texto, você tinha essa liberdade de criar na área de fotografia. Então, você chegava com o seu material, ninguém falava ‘você faz isso, isso, isso e isso’. Falava ‘olha, o tema é esse aqui’. Você, claro que você dava uma colada no repórter, né? Porque, puta, o cara sabia um monte de coisas.

 

Por exemplo, as pessoas participavam, você chegava de uma matéria e tinha lá umas mesas de luz grandes, e aí colocava o material, projetava, e as pessoas de outra matéria, o pessoal ia ver, né? Você chegava, fazia uma projeção, a redação ia ver, se fosse uma coisa importante, e tal. E aí discutia...

 

Você ia e ficava no dia-a-dia ali, junto do assunto. Você fica vivendo aquilo. Eu fazia assim, né? E ia tirando uma coisa aqui, outra ali, não é como hoje, que você fotografava, você demorava...

 

José Hamilton Ribeiro, Fernando Mercadante, o Audálio, ainda ficou o... quem ainda? O Roberto Freire, fazia umas... É, mesmo o Jorge Andrade. [...] Mas, aquela garra, aquela coisa, aquilo acabou, mesmo. Aí é uma coisa mais de ‘pô, o fulano lá sabe fazer, tá precisando de um... fazer um freela aí’. Aí já encaixava o cara, porque não era mais uma equipe. Mas, claro que manteve, esses caras não iam... mas, matérias assim, daquelas que era feita, por exemplo, entrevista com o Luís Carlos Prestes, por exemplo. Entrevista, pô, nunca mais. Rompeu total.

 

Ali era o paraíso. O material para você ir trabalhar. Você ia fazer alguma coisa que precisava de lente, por exemplo, você ia no acervo lá, da coisa e fala ‘oh, viagem tal para a Realidade, eu quero isso, isso, isso...’ Pô, você saia com... Uma vez eu saí de lá com uma lente, bicho, que era maior que um violão, assim. Uma mala. [...] Era, essa lente era... eu coloquei ela numa Pentax. Pra fotografar um... não sei, eu fui fazer um ensaio, na Serra do Mar. Eu acabei usando pouquíssimo. Era um negócio... Era um dinossauro. Era um dinossauro!

 

A foto de arte. Não, não a foto-documento. Então, você pegar nas revistas que tinha, não tinha, n’O Cruzeiro não tinha ensaios. Tinha foto-documento. Então, eu acho que foi uma abertura, né? E não era uma revista de arte. Então, pra você vê como que era uma coisa aberta. Ninguém tinha coragem de publicar o ensaio. Mas isso, naquela época o pessoal era meio tapado.

 

Eu acho que foi uma revolução pra fotografia. Ninguém, não tinha onde publicar esse tipo de... inclusive internacional. Porque a revista Realidade era uma coisa... era muito. Eu acho que foi uma... abriu a cabeça, assim, total, essa forma visual da revista, que tinha ilustração também, a revista Realidade.

 

Às vezes o repórter que tava com você, o cara percebia que você tava criando [...] Então, eu acho que é isso mesmo. E aí é que era a coisa legal, porque você também percebia no cara.

 

Amazônia tem muita coisa, é chocante. [...]. Eu substituí o Solari, aí eu cheguei lá em Manaus, eu não sabia quem que tava, aí eu cheguei no hotel, tavam me esperando. (risos) Tava o Raimundo Pereira, o Otávio Ribeiro, o Hamiltinho, eu não lembro quem mais... Ah, tava a Laís Tapajós. E eu cheguei, a primeira coisa que os caras falaram ‘e aí, trouxe o dinheiro?’. (risos) Os caras já tavam duros, já tavam sem grana, porque eles tavam há muito tempo ali, e os caras tavam meio mal para pedir mais dinheiro e como eu cheguei todo fresquinho, cheio da grana, os caras me tomaram tudo, pô!

 

CHIODI, Amâncio. Amâncio Chiodi: depoimento [22 maio 2013]. Entrevistadores: Leylianne Alves Vieira e Marcelo Eduardo Leite. São Paulo, 2013. Entrevista concedida ao Projeto Realidade: o fotojornalismo (autoral) de uma revista.