Walter Firmo

Atuou desde o início da revista, tendo sido o primeiro fotógrafo contratado para o quadro de REALIDADE, ainda em 1965. Saiu da revista em 1966, mas retornou posteriormente, como freelancer.

 

 

Aceitei imediatamente. [...] o que me fazia, assim, entusiasmado, é que a revista, a fotografia [...] ia ter um outro encaixe, era uma revista, era uma revista que ia trabalha a fotografia como um encantamento, sabe? A revista ia ter um papel prioritário, quase que igualitário, era fifty-fifty com o texto. Era uma postura mais ensaística, onde o fotógrafo era pensante.

 

Foi o que me transferiu, foi o que me seduziu. Era eu me envolver com uma outra parada, com outro imaginário, um outro mundo, em que eu pudesse me tornar um fotógrafo muito mais versátil, de que um que trabalhasse só com a anatomia do flagrante, que era exatamente como é sempre nos jornais. A fotografia, o melhor da fotografia pra eles é aquela fotografia em que o fotógrafo não mexe, em que o fotógrafo praticamente não pensa, é aquela fotografia que o fotógrafo quase que é um autômato do que está na frente dele. Ele tem que se preocupar em apertar o botão daquilo que acontece, nada mais. E eu já tinha feito isso durante sete anos, três anos na Última Hora e quatro anos no Jornal do Brasil. Eu estava precisando de me animar com uma nova lufada de ar, abrir uma janela e partir pra um outro horizonte.

 

Na preparação de número zero, as matérias eram muito poucas para um fotógrafo, imagina, né? Só tinha eu. [...] Os outros vieram depois da minha saída. Então, eu me sentia, assim, muito sem fazer nada ali, e isso me deixava muito magoado, em relação ao tempo que eu perdia na redação, dentro daqueles paus cheios de jornais, todos eles, entendeu? E as horas passavam demoradamente, e eu tava desacostumado àquela situação. Diferente dos jornais que eu trabalhei, que eu tinha três, quatro saídas, cinco, às vezes, saídas por dia, num horário de oito, dez horas, que eu estava à disposição do jornal. Plantão, né? Era oito, oito a dez horas, o time. E lá eu saia, às vezes, três, quatro, cinco vezes. Isso era uma coisa que eu sentia falta, quando eu fui pra uma revista mensal, em que tudo era pensado, né? As reportagens.

 

E era uma coisa muito noviça pra mim, eu estar no meio de reuniões com repórteres. Isso nunca tinha sido facultado nos jornais que eu trabalhei. Então, era uma pessoa pensante, que podia sugerir reportagens, podia sugerir situações enquanto era também, é... estava naquele projeto, fazer uma reportagem, por exemplo, em Aparecida do Norte, eu dar sugestões fotográficas, de coisas que poderia fazer, dentro de um texto que já se adiantava, pelo próprio falecido que me levou pra lá, o Mercadante. Então, a gente trabalhava isso, o entorno, o quê que a gente ia fotografar, antes de chegar no local, totalmente diferente dos jornais.

 

Durante muitos anos uma agonia me perturbou, sabe? Toda vez que eu via a revista sair, com todo aquele estrondoso sucesso, quase que eu me... me auto-flagelava, porque era onde eu queria estar. Era onde eu queria trabalhar. Mas, eu fui, intempestivamente, tomado de um ato de criança, de querer contestar o dono da revista. [...] Foi assim, eu saí de lá espocavam os fogos e as champanhes e os tin-tins, porque eu saí de lá, quer ver, uns dez dias depois de a revista ter sido lançada. É, eu saí.

 

[...] eu me adaptei na hora com eles. Eu queria uma família. E uma das coisas que mais eu, com esse meu jeito, assim, sensível e chorão, eu às vezes, cara, eu chorava vendo a revista, o sucesso da revista, naquelas bancas, a cada mês que ela fluía, porque eu via o sucesso dos meus queridos, vamos dizer assim, parentes. E eu deveria estar junto deles, mas por uma questão de bobagem, eu tinha perdido aquela chance. Era por eles, estar no meio deles, sabe, você vê.

 

O George Love foi o que desconstruiu, digamos assim, a fotografia na Realidade. Porque ele publicava coisas insólitas, assim, borradas, desfocadas, sem nexo, mas era uma nova linguagem. [...] Eu era fascinado pela criatividade dele. A ‘muluquice’ (aspas), daquelas fotos totalmente distorcidas, abstratas, desconectadas com o seu tempo, mas muito provocativas. E aquilo me acendia uma luz dentro de mim, de eu querer também partilhar aquela estrada, [...] que é aquela pequena loucura.

 

FIRMO, Walter. Walter Firmo: depoimento [05 jun. 2013]. Entrevistador: Marcelo Eduardo Leite. Recife PE, 2013. Entrevista concedida ao Projeto Realidade: o fotojornalismo (autoral) de uma revista.