Jean Solari

Nascido na França, trabalhou em revistas como O Cruzeiro (1958), Quatro Rodas (1966) e Manchete (1974). Entrou para a revista REALIDADE em 1968, substituindo o fotógrafo Geraldo Mori, após sua morte. Ficou na revista até o ano de 1973.

 

 

Havia um consenso do pessoal, um consenso de ideias. Era mais um grupo muito unido, isso era muito importante, era uma equipe mesmo. [...] Fechava uma revista, a gente tinha uma reunião de pauta, todos participavam, o repórter, o fotógrafo, até... todo mundo, todo mundo participava. E era discutida a pauta. Então, “ah, você vai fazer isso, você vai fazer aquilo”. Você propunha uma ideia, de repente você ali fazia esse negócio. E era muito democrático. Você tinha quinze dias para fazer a matéria e depois o fechamento da revista. [...] No final, na época das últimas revistas, a gente tinha que mandar essa pauta para Brasília, eles seguravam quinze dias, ai você tinha uma semana pra fazer a matéria.

 

Eu achava essencial isso. Você vê, por exemplo, a Realidade Amazônia, eu passei três meses na Amazônia. São Francisco foram quarenta e cinco dias de viagem. Realidade Nordeste foram três meses de viagem. Então você tinha... No caso da Amazônia, por exemplo, foi uma preparação muito grande [...] três meses de pesquisas, que quando você chegasse no campo, você sabia o quê que você ia encontrar.

 

A gente participava, obviamente, às vezes, defendia uma foto, fazia com tanto sacrifício uma foto e o editor de arte não tomava nem conhecimento e gente no fim ficava aceitando porque ele tinha a visão do conjunto. Mas isso sempre valorizava o trabalho da gente.

 

No final da Amazônia nós chegamos, ficamos no apartamento da Claudia Andujar e do George Love na Paulista [...] Tinha, se não me engano, vinte carrosséis, cada fotógrafo tinha feito uma seleção de seu material e a gente estava discutindo, escolhendo o material, o quê que ia ser, o quê que não ia ser. E a gente chegou e pegou alguns carrosséis e fomos até o Civita para mostrar. Depois do terceiro, ele falou não precisa ver mais nada, está ótimo. Ele cansou de ver tantas fotos. Realmente tinha fotos incríveis.

 

Porque é uma questão que a gente sempre foi rebaixado. O salário do redator era sempre superior ao do fotógrafo. Então, um dos itens, eu também debati muito sobre isso é que você chegava, por exemplo, cai um avião na tua frente, se você não fez a foto, dançou; o redator pode reescrever a matéria vinte vezes. Então você tinha que fazer a foto no momento certo, o redator poderia interpretar essa foto, esse fato, de várias formas. Portanto, a gente merecia ganhar igual, mas isso nunca pegou.

 

Havia muitos fotógrafos de origem estrangeira na Realidade, e eu acho que isso e um aparato cultural, a nossa base cultural era bem diferente da turma lá; tanto que a fotografia no Brasil melhorou muito.

 

Na Abril a gente tinha o equipamento de base que eram dois corpos Nikon e tinha vinte e quatro, cinqüenta, cento e cinco e duzentos. E você tinha disposição no acervo, você tinha todas as outras lentes, olho de peixe, vinte e um milímetros ou quinhentos.

 

Eu acho que ela abriu muito, muito os olhos porque a gente conseguia mostrar o país de uma maneira diferente, mostrar as coisas de modo diferente. Eu acho que nossa contribuição foi essa, inclusive muita gente seguiu o nosso caminho, fiquei muito orgulhoso disso.

 

O que acontece é que a Realidade era uma revista mensal, Match e Life eram semanais, então é produção, produção, produção, produção... A gente tinha calma para fazer as coisas, então isso fazia a diferença. Quando eu saí da O Cruzeiro, que era uma revista semanal, para uma revista mensal, pensei, que alívio! Você tem tempo para fazer as coisas, você não sai na disparada.

 

Realmente eu senti muito o fechamento da Realidade porque, você vê, eu tive fotografias praticamente em todos os números desses anos que eu trabalhei lá. Realmente era empolgante.

 

SOLARI, Jean. Jean Solari: depoimento [25 jun. 2013]. Entrevistador: Marcelo Eduardo Leite. Saquarema RJ, 2013. Entrevista concedida ao Projeto Realidade: o fotojornalismo (autoral) de uma revista.