Paulo Orlando Lafer de Jesus (Polé)

Originalmente foi diagramador e, posteriormente, Assistente da Direção de Arte na Editora Abril, trabalhando na REALIDADE entre os anos 1968 e 1970. Trabalhou com Eduardo Barreto, o principal responsável pelo desenho gráfico da revista.

 

 

E um belo dia eu vou pra banca de jornal e vejo essa revista. E eu fiquei completamente alucinado. Eu ia no banheiro com a revista, tomava ônibus com a revista debaixo do braço, porque aquilo mexia comigo de uma maneira que aquilo que eu entendia como comunicação, publicidade, não mexia. [...] E comecei a me identificar porque eu já tinha alguma afinidade política, vamos dizer assim, com esse jeito de ser. Aí, amigo, eu peguei um... ...três ônibus, sei lá quantos ônibus, e fui na casinha da Editora Abril, a casinha era uma casinha de madeira que era o departamento pessoal. E falei assim: ‘Oh, tem serviço pra mim aí?’. ‘Ah, não tem, não sei o que, mas preenche essa ficha’.

 

Eu era um gráfico modesto, mas eu tinha muitas noções de diagramação. Então, rapidamente, eu fui pegando aquilo, porque eu já tinha a estética mais ou menos, é... mastigada na cabeça, né? [...] E naquele momento, acabou que eu era um diagramador, logo depois virei assistente de arte de um grande diretor de arte que foi muito importante na minha formação, na minha e de outros profissionais, já falecido, que era o Eduardo Barreto, que era o pai do projeto gráfico disso daí.

 

Então eu vi... eu não sei, eu não conheço ninguém que tenha visto mais fotografia na vida do que eu. Porque só nesse período aí eram milhares de fotografias, por mês. [...] Pois é, e então, o quê que o contato com essas pessoas é o que acabou de me polir nesse campo do visual. Porque eu já era um gráfico razoável, e com bom conhecimento fotográfico. Então, eu conseguia fazer a ponte legal. Então foi essa a minha chegança lá.

 

Porque o editor de texto era o Sérgio de Souza e aí eu queria saber, é... que era uma... pra eles foi uma novidade, e pra mim também, falou ‘porra, eu não vou conseguir escolher essas fotos, vou fazer uma pré-seleção, pra gente diagramar, se eu não souber como que é a matéria. [...] E naquele tempo também não era muito comum uma pessoa vinda da arte se interessas pelas questões do conteúdo e tal. Então eu ficava enchendo o saco de quem? Da editoria de texto pra, antes de mais nada, me passar o texto, antes, mesmo que fosse cru, pra mim ter uma noção do quê que a gente tava falando, pra me facilitar a pauta mental, da onde eu poderia... então, eu acho que essa... esse exercício, desse convívio, é que trouxe uma liberdade, em todas as áreas.

 

Na separação das imagens, quando você começava a projetar, que era uma projeção feita pelo departamento de arte com a editora de texto, com a editoria de fotografia, o diretor geral, o Paulo Patarra, tal, e a gente assistindo e comentando e batendo bola e ali é que ia surgindo... era uma... uma pauta de finalização, vamos dizer. Ali é que ia surgindo. Falou ‘porra, essa imagem é do cacete’. Aí o Serjão já dava o toque, falou: ‘pô, rapaz, eu acho que isso daí dá pra gente pensar um pouquinho mais, isso daí vai dá uma abertura legal’. Não sei. Então ficava num bate bola, num jogo de futebol mesmo, passando um pro outro, e até chegar na finalização de maneira muito harmônica, não lembro de ter participado de nenhum arranca-rabo lá dentro dessa redação, aliás, todas as outras eu vi, nessa não.

 

Eu lembro da presença do Lew Parella, que eu acho que foi importante pra Editora Abril, ele organizou [...]. Era tão prestigiada a fotografia, um negócio tão importante e tão intelectualmente, assim, fundamental, pra formação das cabeças, para passar a informação adiante [...].

 

Eu acho que isso aí, você criou um padrão estético, você criou uma... quantos fotógrafos não surgiram, inspirados pela revista? Por essa revista? Quantos gráficos... eu, o meu trabalho era em publicidade, eu pegava, folheava essa revista, e aquele negócio me hipnotizou. Porque essa é a mágica da boa fotografia, da boa diagramação, do texto preciso, do casamento desses três elementos. Não adianta nada você ter uma fotografia maravilhosa, um texto fantástico e uma arte, mas tudo desconexo. O convívio dessas três áreas aí foi muito importante.

 

Tanto o design da revista podia ser referência para você encaminhar as matérias ou influenciar a fotografia, como o processo ao contrário, também. Muitos títulos e muitas montagens de páginas, muitas... montagem da matéria, surgiram a partir de uma referência fotográfica. Era onde a fotografia passava a ter uma importância maior até do que a vontade do diretor.

 

O Eduardo (Barreto) [...]. Pra mim foi um mestre fantástico, porque ele me mostrou que a arte gráfica poderia ser algo além do que o serviço técnico gráfico. Você podia ajudar a passar a mensagem. E, de maneira sutil, tal, e até chegar à extrapolação, que ele mesmo comentava, de que a gente era uma espécie de cozinheiro, que tinha vários condimentos e vários produtos na mão, e a gente tinha como misturá-los.

 

Ela tinha um estilo bem definido. E em alguns momentos tinha uma certa antropofagia, no sentido de adequar melhor uma matéria, mas ela era uma revista que tinha um estilo definido, tinha uma tipologia definida, com pouquíssima variação, um esquema de diagramação bastante claro, um tamanho das coisas, dos elementos já bastante estudado e provado. E era uma fórmula que tava dando certo. Quer dizer, você não precisava também ficar buscando outras maneiras, tal, porque já tinha achado... já tinha sido achado o caminho da roça.

 

Até hoje eu morro de saudade, morro de saudade, de pegar um carrossel do George Love, ir com um conta fio, ficar escolhendo as fotos, era uma coisa que... orgásmico, sabe? Da maior qualidade que o cara tinha, conhecimento de ótica e modernidade.

 

Eu lembro de algumas coisas que tinha lá matéria tal, eu cheguei pro... o meu amigo: ‘o quê que você tá achando disso’, ‘Eu to achando o seguinte, que não precisa de uma linha de texto, isso daqui’. ‘Porra, não é mesmo?’ ‘Porra, uma sequência fotográfica absurda. Você se emociona pelos olhos, você não precisa ouvir nada, não precisa pensar nada, é só observar’.

 

JESUS, Paulo Lafer de. Paulo Lafer de Jesus: depoimento [01 jul. 2013]. Entrevistador: Marcelo Eduardo Leite. Ubatuba SP, 2013. Entrevista concedida ao Projeto Realidade: o fotojornalismo (autoral) de uma revista.