Raimundo Pereira

Foi um dos integrantes da primeira equipe da revista Veja, tendo trabalhado nesta publicação entre os anos de 1968 e 1970. Trabalhou na organização dos números especiais de REALIDADE, sendo o responsável pelos de título Amazônia (1971) e Cidades (1972).

 

 

Eu gosto muito de uma revista americana de fotografia e geografia, a National Geographic Magazine, então pensamos assim uma reportagem um pouco desse estilo, mas mais ampla; e fizemos essa pauta da Amazônia que foi, a Abril na época tinha muitos recursos, eu não conheço nenhuma reportagem que tenha tido os recursos que aquela teve.

 

Nós fomos uns, assim, mais ou menos, meia dúzia de repórteres que eu contratei, Hamiltinho e eu. Contratei o Sergio Buarque, o Lúcio Flávio Pinto, o Otávio Ribeiro, e, fotógrafos, o Solari, o Chiodi, a Claudia, o George Love, a Maureen. E ficamos meio ano na Amazônia trabalhando, preparando essa edição, depois ficamos mais, eu só sei que no total devem ter sido uns nove meses ou dez meses, ou talvez até um pouco mais. Uma edição que foi assim um sucesso estrondoso, em uma semana mais de trezentos mil exemplares.

 

Foi muito interessante porque [...] a Realidade é uma revista ilustrada fundamentalmente, então a fotografia tem um peso enorme, e foram coisas espetaculares, né? Por exemplo, o ensaio sobre os índios da Claudia, levou a Claudia a virar a fotógrafa, a ajudar a criar o parque dos Yanomamis [...]. E também o trabalho do Solari, com o Octávio Ribeiro, que se meteram na mata e ficaram sei lá quanto, dois meses, entre os vários períodos talvez até uns três meses eles ficaram embreados na mata.

 

Fizemos um bando de coisas, eu acho que é um trabalho, realmente ficou espetacular, uma coisa assim interessante mesmo. Mesmo do ponto de vista político porque nós fomos muito habilidosos, fomos atrás dos fatos e deixamos de lado interpretações que poderia ofender os militares, porque tinha a censura.

 

Isso foi um grande sucesso também de venda, de publicidade, não foi um sucesso assim tão grande de vendas, não vendeu esses... Realidade Amazônia se esgotou em menos de uma semana, os trezentos mil exemplares. E até tinha uma discussão lá da Editora que nós tínhamos gasto muito dinheiro, fizemos não sei quantas mil fotos e é um absurdo, um desperdício e tal. E no final isso foi soterrado pelo sucesso extraordinário.

 

Tinha essa preocupação de... A própria edição da Amazônia ela é uma coisa assim, nós estamos mostrando o que está acontecendo concretamente. A matéria sobre o, no fundo, sobre o capital estrangeiro na Amazônia procurava responder uma série de coisas jogando um monte de fatos.

 

Não, nessa primeira fase nossa não. Quer dizer, você negociava, né? A Realidade Amazônia saiu, claro que você tinha que ser esperto, para fazer a pauta, a pauta de Realidade Amazônia, a pauta de Cidades...

 

A Maureen tinha um plano meio próprio, a Maureen tinha um interesse, ela até hoje trabalha com essas coisas, o artesanato; então ela foi... Algumas coisas foram um pouco independentes. O grande fotógrafo dessas formas da Amazônia foi o George [...] não só porque ele tinha esse problema, mas porque ele também era um outro tipo de fotógrafo. Ele é mais formalista, a Claudia, aquele negócio dos índios é uma paixão.

 

A edição, nós fizemos grandes reuniões aqui, na casa da Claudia, no apartamento dela, vendo as fotos, discutindo. A edição foi um trabalho grande, a edição demorou uns dois meses de trabalho, de selecionar, de ver. Ela e o George, eu acho que tiveram um grande papel, a Maureen também esteve nessas reuniões, que eu me lembre. [...] Foi um trabalho muito coletivo essa edição de imagens, e foi realmente um resultado espetacular, tinha muito material.

 

A Realidade era o paraíso, assim de chegar no fim do mês e todo mundo correr pra banca pra ver esse prodígio de imagem e de texto. Uma coisa assim que, eu não sei, precisaria ver na história da imprensa mundial, o papel dela, como inovação, como talento desse trabalho e dessa equipe de primeira, um conjunto de gente!

 

PEREIRA, Raimundo. Raimundo Pereira: depoimento [28 jun. 2013]. Entrevistador: Marcelo Eduardo Leite. São Paulo SP, 2013. Entrevista concedida ao Projeto Realidade: o fotojornalismo (autoral) de uma revista.