Junko Yamanaka

Trabalhou na editora abril por 26 anos. Começou no Departamento de Publicidade, passou à revista Quatro Rodas e, ao mesmo tempo, realizou trabalhos freelancer para a revista REALIDADE.

 

 

A Claudia é uma pessoa muito organizada e... então, o que ela fazia? Ela pegava todo o material dela, levava lá no diretor de arte da revista, o Eduardo Barreto, e chegava falava ‘vamos escolher’. Sentava e ficava lá o dia inteiro escolhendo fotos. Aí ele dizia ‘eu quero esta, esta, esta, esta’. ‘Quantas fotos você quer?’ ‘Quinze, vinte, sei lá’. ‘Então tá certo, é... escolhe aí as vinte’. Ela tirava os cromos, na época, e falava ‘oh, as vinte estão aqui’. E o resto ela levava embora.

 

O que eu tenho com a Realidade? O que eu tenho com a Realidade é que eu me casei com o Mamprin. (risos) Essa é a única relação que tem com a Realidade. [...] A indireta era o seguinte: que naquela época, as matérias não eram feitas em computador, eram todas transcritas, daí o copydesk chegava, corrigia tudo, e... era necessário fazer a transcrição do que foi corrigido. E eu, depois do expediente, eu ia lá na revista Realidade, a partir de seis horas, mais ou menos, e trabalhava até as onze, doze, duas horas da manhã, transcrevendo matérias. [...] Inclusive porque, é... rendia um dinheiro a mais pra mim. Serviço... Eu era secretária, e secretária não ganhava bem, mas eu juntava o freela, que pagava bem, mais o salário, e rendia um bom dinheiro.

 

Aí eu conheci o Mamprin porque o Mamprin, antes de ir trabalhar na Realidade, ele fazia alguns freelas na revista Quatro Rodas, que era onde eu trabalhava. Aí conheci ele. E daí, fazendo freelas pra Quatro Rodas, o pessoal da Realidade, aqueles que mandavam na revista, é... que resolviam a questão de quem trabalha lá, quem não trabalha, era o Robert Civita, na época, o Sérgio de Souza, e mais algum outro editor que não me lembro. Paulo Patarra. [...] E aí o Mamprin foi trabalhar lá na revista Realidade. Mas, lá na Realidade, na época que o Mamprin foi, já estavam lá, acho que o Jorge Butsuem, o Jorge Mo... o Mori. [...] O Butsuem, também, já era mais... ele funcionava quase que um peão. É, porque o dona da Abril gostava muito dele. Bom, também, era difícil não gostar do Butsuem. (risos)

 

Uma cena, acontece, fotografou. Por sorte, fotografou. Na Realidade não. Ele falava ‘oh, você tem quinze dias pra fazer essa matéria’. Aí ele fazia o que ele queria. Não tinha diretor, não tinha ninguém pra ficar junto com ele. É, o que acontecia era do cara do texto querer também estar junto, e aí fazerem a matéria juntos, na hora de editar a matéria. Mas muitas vezes ele foi sozinho, trabalhar, e... tanto que, quando o Mamprin era chamado de fotógrafo, ele sempre corrigia ‘não, eu não sou fotógrafo, eu sou repórter fotográfico’.

 

Ah, do salário ele reclamava sempre. Ele achava que, porque... na imprensa brasileira, sempre se valorizou mais o texto do que a fotografia, então, o repórter do texto ganhava mais do que o fotógrafo, o repórter fotográfico, assim uns... digamos lá, vai, quase cinquenta por cento a mais... daí que ele reclamava. E não achava justo. E não era mesmo, porque, o que segurava a revista era o texto e a fotografia, porque a revista Realidade sem a fotografia não é nada.

 

[...] o Mamprin participava, quando ele estava em São Paulo... Fotógrafo é assim, faz o trabalho, aí fica aqui um tempo, e dali... ‘ah, tem que viajar’. Aí, quando era editada a revista, ele não tava mais aqui em São Paulo. Então, quando ele conseguia acompanhar, qualquer matéria que fosse, não podia... precisava ser dele, não, qualquer matéria que fosse, ele se metia, onde não era chamado, né? E falava: ‘Por que você não faz isso? Por que você não faz aquilo? Por que você não faz assim? Por que você não faz assado?’. E se metia muito, inclusive... na legenda, título, e todo mundo chamava ele, porque ele era um cara muito criativo. Então os títulos saiam, assim, ‘oba, é, é isso mesmo!”, quer dizer, lá. Captava logo o espírito da matéria.

 

Como eu te falava, esse grupo da Realidade, era esse grupo assim, coeso, assim, quase família. Muita gente não queria saber disso. Acabava o expediente, rua. E o Mamprin não, ele ficava por ali. Porque ele adorava a redação. Qualquer redação, ele adorava, da Realidade ele adorava mais, né? (risos) Então, ele via... o... Às vezes nem precisava ir, ele ia. Porque tinha... aquele ambiente de redação, ele gostava demais.

 

E essa é a grande importância, da revista Realidade. Por exemplo, quando o Mamprin foi fazer uma matéria sobre mortalidade infantil, pra revista Realidade, já era época dos militares. Então, ele fez muitas fotografias absolutamente chocantes, só que a censura não deixava publicar. [...] Então, falava-se muito, é... ‘ah, não, porque o Brasil é o país do futuro, não sei o que...’ E você via criança, assim, do Nordeste, morta de fome, né? Quando foi enterrada, ela cabia dentro de uma caixa de sapato. Isso aí serviu... quer dizer, a fotografia, na revista Realidade, acho que serviu pra isso.

 

YAMANAKA, Junko. Junko Yamanaka: depoimento [03 jul. 2013]. Entrevistador: Marcelo Eduardo Leite. São Paulo SP, 2013. Entrevista concedida ao Projeto Realidade: o fotojornalismo (autoral) de uma revista.