REALIDADE: O fotojornalismo (autoral) de uma revista

 

Marcelo Eduardo Leite
Carla Adelina Craveiro Silva
Leylianne Alves Vieira

 

A gênese de uma proposta


         Perguntas nos inquietam e as lançamos ao mundo. A origem está, às vezes, naquilo que gostaríamos de ter vivido e não pudemos. Ao buscar respondê-las, valemo-nos da memória e de outros fragmentos que o tempo, apesar de implacável, deixa permanecer sobre nossas mãos. Frações da história que resolvemos manter, escolha que, neste caso, se deve ao não esquecimento das coisas que brilham, mesmo quando guardadas por décadas no armário úmido da lavanderia de uma casa. Nos anos 60, a revista REALIDADE nasceu da crença de que o jornalismo tinha capacidade de ser tão contestador e profundo quanto a revolução comportamental que seu contexto histórico abrigava. Aqueles que viram e traduziram essas experiências em textos têm muito para contar. No decorrer de nossas pesquisas, uma frase dita por Maureen Bisilliat ganhou ressonância, nos disse ela: “A memória das pessoas é muito peculiar, é muito restrita àquilo que a gente se lembra” (MAUREEN, 2013), é, pois, nestas peculiaridades que procuramos por aquilo que possa ajudar a entender o que leva REALIDADE a ser um marco da imprensa brasileira. A fala foi uma estratégia para não se deixar ver apenas pela aparência; ela sabia confundir o lugar da visualidade.

REALIDADE, ao equiparar o valor da linguagem imagética com a verbal, rompia definitivamente com a oposição entre as formas de conduzir a notícia. Seus repórteres dispunham de tempo para viver o assunto e de direito de voz para debater e defendê-lo, fossem os seus discursos compostos por palavras ou por fotografias. O privilégio da liberdade de criação foi explorado em suas reportagens que adquiriram caráter ensaístico. Pensar a fotografia da revista é, então, propor o reconhecer da multiplicidade do texto que adere a ela, na junção entre o visual, o textual e o gráfico em uma linguagem fluente que ultrapassa o literário pelo acostamento. Nenhum entre os que integraram aquela redação saiu intacto, assim como nenhum leitor retorna ileso de suas páginas. A REALIDADE circulou entre 1966 e 1976, mas podemos dizer que a vitalidade da sua proposta é percebida, mesmo em menores doses, até o ano de 1973, pois em seus últimos três anos a mudança é tanta que fica difícil vermos uma relação que esteja além da palavra REALIDADE.

 

O reconhecimento das coisas pelas portas de REALIDADE

 

Após um período de experimentos na Editora Abril, o primeiro número de REALIDADE saiu em abril de 1966. Seus principais idealizadores eram jovens jornalistas da revista Quatro Rodas, que sonhavam com uma publicação voltada às grandes reportagens. Este grupo era liderado por Paulo Patarra que, além de apreciar o gênero da reportagem, já desenvolvida em Quatro Rodas, tinha bom conhecimento das publicações internacionais e suas formas de uso da narrativa fotográfica, sobretudo as revistas Life, Look e Paris Mach. Ao mesmo tempo, os donos da editora tinham em mente lançar uma revista semanal, a ser encartada em alguns dos principais jornais do país, projeto que não deu certo. Porém, restou uma grande inquietação intelectual dentre os jornalistas da Editora Abril que se alinhavam à ideia de uma revista com um aprofundamento maior nos assuntos. Carlos Azevedo nos contou que, diante da vontade de se fazer uma publicação com esse perfil, eles investiam nessa direção dentro de outra revista, a Quatro Rodas. Era nela que as grandes reportagens estavam sendo feitas, muitas delas marcadas pela longa distância percorrida e pelo generoso tempo dedicado para fazê-las. Sobre o surgimento da revista, ele relata:

 

[...] o Paulo Patarra, que era o diretor de Quatro Rodas, em negociações lá com os patrões sabia que o pessoal da Abril queria lançar uma revista de reportagem, revista mensal, grande, etc [...] O Paulo Patarra é o grande, é o grande, vamos dizer assim, criador, o grande formulador desse projeto todo aí da Revista REALIDADE. E ele já começou ali a atrair gente que ele considerava bons profissionais para formar uma equipe pra poder se candidatar a fazer a revista REALIDADE (AZEVEDO, 2013).

 

Dentro da Editora Abril estava o jovem Robert Civita, com seu conhecimento atualizado com relação à mídia impressa, fruto da sua passagem pelos Estados Unidos, onde estudou jornalismo. Assim, encontraram-se a vontade dos jornalistas em fazer uma publicação dedicada a reportagens no sentido mais amplo do termo e, do ponto de vista empresarial, a necessidade de diversificar os produtos da empresa. A soma dessas intenções gerou o novo projeto. Fizeram parte desse momento histórico da imprensa brasileira, nomes como Carlos Azevedo, José Carlos Marão, Sérgio de Souza, José Hamilton Ribeiro, Narciso Kalili, Mylton Severiano, entre outros. Logo nesse início foi contratado também Walter Firmo, sendo este o primeiro fotógrafo a fazer parte dos quadros da publicação. A revista e seu perfil inovador ganharam fôlego, suas edições mensais conquistaram de imediato o público e o mais louvável de seus objetivos foi alcançado: criar uma publicação que privilegiasse o gênero reportagem. Os textos de REALIDADE deixaram claro, logo nos primeiros meses de publicação, como tratariam os temas de pauta:

 

[...] logo no ano de lançamento, 1966, em relação às reflexões sobre questões desconhecidas da cultura brasileira, deu bons exemplos do estilo de jornalismo que pretendia alcançar. Com textos leves, marcado por nuanças de narratividade literária, apresentou um Brasil diferente: construído por depoimentos diretos dos personagens, e fotografias que buscam um aprofundamento na realidade, além de liberdade criativa tanto para a produção de texto, como para a imagem (LEITE; VIEIRA, 2013, p. 174).

 

Um dos pioneiros, Mylton Severiano, também credita à liderança de Patarra a fórmula da revista:

 

Aquela redação da revista REALIDADE, ela se faz por obra e graça do Paulo Patarra que era o inventor daquela fórmula. Então, ele chamava, ele montou o time com carta branca do dono da Abril, o Vitor Civita, ele montou o time baseado em uma coisa muito simples, bom caráter e bom de texto [...]. Para trabalhar ali tinha que ser bom caráter e bom de texto (SEVERIANO, 2013).

 

A fórmula da revista era abrangente: profundidade nas incursões, liberdade de escolha de temas, longo tempo para desenvolvê-los, caráter humanista dos relatos, afinidade e respeito entre seus profissionais e heterogeneidade em suas formações profissionais. Após a formação do primeiro grupo, os jornalistas pioneiros trouxeram pessoas de áreas distintas: cronistas, dramaturgos, escritores, psicanalistas. Buscaram também fotógrafos. Com o decorrer do tempo, a revista foi se tornando um espaço inovador, provocador, indo na contramão do regime totalitário. Suas reportagens, além de abordarem temas que até então eram ignorados, mostraram um Brasil poucas vezes lembrado, e o fez, com grande respeito às diferenças sociais e culturais do nosso país. Conforme descreve Vilas Boas (1996, p. 92), a cobertura dos temas em REALIDADE “[...] era ampla e ambiciosa. A revista traçava uma espécie de mapa da realidade contemporânea, sem resistência a esta ou aquela pauta. O mundo – e o Brasil, em especial – eram desvendados de modo multifacetado”.

Desde a primeira edição da revista, em abril de 1966, até a última, passaram-se dez anos. Para alguns, ela durou apenas o tempo de permanência do primeiro grupo, até dezembro de 1968, para outros, seu fôlego ainda durou até 1973, quando ela se modifica drasticamente, diminuindo de tamanho, mudando de estrutura, mas mantendo o mesmo nome. Avaliar se sua vida foi curta ou longa é, talvez, inútil, se consideradas todas as características e as contribuições que a fizeram ser uma das mais importantes experiências no campo do jornalismo brasileiro. Seu valor não se mede pelos meses que durou, mas por aquilo que significou enquanto existiu. Em meio às suas páginas, descobrem-se mais do que textos coesos e informações apuradas, testemunhos vão ao encontro do leitor. Mas, essa não era a única das pretensões que sua equipe compartilhava. Na cabeça dessa “molecadinha”, como se referiu José Carlos Marão aos jovens jornalistas que se envolveram com a criação de REALIDADE, existia a vontade de incluir o povo brasileiro numa publicação que o tratasse de forma inovadora, tanto do ponto de vista do formato, quanto do conteúdo. No decorrer de sua existência, pairava naquele ambiente o querer experimentar o Brasil da maneira mais estreita que pudesse haver: tomando-o nas mãos e sentindo seu gosto. As reportagens eram o resultado dessa degustação.

O contexto social e político no qual ela foi gestada misturava as manifestações da revolução comportamental e a atuação de governos repressores, a nação do progresso econômico e os micro-brasis perdidos em uma vasta extensão geográfica e cultural por muitos desconhecida. Foi para reconhecer e discutir esse contexto que os personagens desvelados nas reportagens de REALIDADE eram pessoas comuns, os repórteres buscavam os relatos dos anônimos. Marão (2010, p. 31) afirma que esta opção se dava a fim de que os leitores pudessem se identificar, se projetar nos personagens da revista. Eles precisavam, portanto, ter contato com “[...] os fazedores, com as pessoas que fazem alguma coisa [...]” (AZEVEDO, 2013), como afirma Carlos Azevedo,  justificando essa opção pelo objetivo que tinham de “[...] mostrar o Brasil para o povo brasileiro no momento em que tinha uma ditadura” (AZEVEDO, 2013). Nos termos de Faro (1999, p. 89), a revista estava intimamente ligada àquele contexto e a seus leitores, uma vez que

 

A proposta editorial de Realidade vinha responder às expectativas geradas por essa conjuntura cultural: uma proposta marcada, a um só tempo, pela horizontalidade e pela verticalidade, no sentido de que situava o leitor no âmbito universal dos problemas de seu tempo, mas não o fazia de forma acanhada ou apenas plástica; fazia isso desnudando a crise do contemporâneo. A revista procurava dar ao público a dimensão essencial de suas indagações através de uma extraordinária variedade temática [...]. Mas numa pauta nada aleatória, muito menos um universo de situações que não guardavam relação entre si [...].

 

O impacto da revista ganhou cabeças pelo país afora. Aquela mensagem proposta foi recebida, compreendida e admirada. Parte dessa projeção pode ser medida pelo depoimento de um daqueles que pouco depois veio a fazer parte da equipe, Paulo Lafer de Jesus, o Polé, então um jovem funcionário de uma agência de publicidade. Ele conta que:

 

E um belo dia eu vou pra banca de jornal e vejo essa revista. E eu fiquei completamente alucinado. Eu ia no banheiro com a revista, tomava ônibus com a revista debaixo do braço, porque aquilo mexia comigo de uma maneira que aquilo que eu entendia como comunicação, publicidade, não mexia. [...] E eu via naquilo, nessa publicação, qualidades que eu não via na publicidade, que é uma coisa mais romântica e... estética pela estética, técnica pela técnica, e tal. E comecei a me identificar porque eu já tinha alguma afinidade política, vamos dizer assim, com esse jeito de ser (JESUS, 2013).

 

Polé, decidido a trabalhar na REALIDADE, se dirigiu à Editora Abril, na qual fez uma ficha no departamento pessoal. Pouco tempo depois foi chamado, vindo a integrar a equipe como assistente de Eduardo Barreto, um dos principais nomes da publicação e aquele que deu equilíbrio visual ao material produzido pelos demais. Com uma equipe que encarava qualquer pauta, que se guiava sempre por forte reflexão crítica e ímpeto criativo, a revista logo alcançou uma tiragem de 500 mil exemplares por mês. Havia competência e disso eles sabiam. A ousadia estava em fazer aquilo que entendiam como jornalismo, de maneira profunda, comprometida, apaixonada até, como disse Mylton Severiano, “[...] usando olhos e ouvidos e todos os sentidos no saber perguntar e relatar.” (2013, p. 62) Não se tratava de profissionais “por trás” das reportagens, eles estavam dentro delas; repórteres, fotógrafos, diagramadores, editores, eles construíam na base da discussão as páginas que tornariam os leitores brasileiros melhor informados a cada mês. E se a matéria prima do jornalismo é, por sua natureza, perecível, o uso das palavras e das imagens em REALIDADE desafiava essa efemeridade. A marca autoral de cada um de seus criadores era explorada, no texto e na fotografia, dando origem a trabalhos cuja profundidade remete ao literário, ao ensaístico.

Relatos imagéticos e textuais terminavam na democrática mesa que dava a finalização gráfica da revista, onde se equilibrava o material, dando identidade visual para as diversas linguagens. Polé relata um pouco dessa liberdade entre áreas diferentes. Segundo ele, os fotógrafos queriam saber mais sobre o texto, os repórteres queriam ver as imagens, os diagramadores queriam saber mais sobre o assunto. Ou seja, o processo quebrava uma possível hierarquização na lógica da produção e permitia um bom trânsito entre os discursos. Segundo Polé, “[...] essa é a mágica da boa fotografia, da boa diagramação, do texto preciso, do casamento desses três elementos. Não adianta nada você ter uma fotografia maravilhosa, um texto fantástico e uma arte, mas tudo desconexo” (JESUS, 2013). Assim, buscava-se equilibrar a fórmula, fazendo com que o conteúdo dos materiais tivesse uma finalização harmoniosa. Desta forma, o discurso transcrito nas páginas das reportagens de REALIDADE

 

[...] era a narrativa de uma época que os jornalistas que viveram essas experiências como produtores de cultura souberam captar. Não era um discurso desencaixado dessa sua condição. E, na medida em que era hegemônico, por toda a produção cultural do período, não deixava à Industria Cultural outra alternativa senão assegurar sua reprodução. Nos termos da conceituação da modernidade, a revista Realidade era parte de uma demanda social e aqueles que a fizeram, consciente ou inconscientemente, perceberam isso. (FARO, 1999, p. 98).

 

A importância da fotografia para a publicação é evidente, desde o design gráfico nela ancorado, relacionando-a às notícias, até a ousadia no seu uso. Ela é, enfim, um marco, pois caminhava lado a lado com texto e design, “[...] dividindo irmanamente a responsabilidade pela construção do discurso” (MELO, 2006, p. 149). Nela, o fotógrafo compartilha com o redator a responsabilidade pela construção da notícia, e, com ele também imprime sua forma de ver as coisas, falando na primeira pessoa, que significa abordar o assunto a partir de uma visão particular. Tal qual o profissional do texto, o fotógrafo mergulha no assunto da reportagem e emerge com um retrato filtrado pelo seu ponto de vista (MELO, 2006, p. 150). "Tanto o design da revista podia ser referência para você encaminhar as matérias ou influenciar a fotografia, como o processo ao contrário, também. Muitos títulos e muitas montagens de páginas, muitas... montagem da matéria, surgiram a partir de uma referência fotográfica" (JESUS, 2013).

No tocante ao contato com aquilo que seria socializado com os leitores, fica demarcado que a arte da reportagem era levada às últimas consequências, não bastava ficar sabendo, rondar um fato, ter uma ou duas conversas com fontes. A vivência, segundo José Hamilton Ribeiro, era elemento obrigatório no dia-a-dia do repórter, todos os outros deveres jornalísticos estavam inseridos nela.

Além de desprendimento para as pautas que surgiam em calorosas reuniões, do talento para traduzir o mundo em textos, os profissionais tinham o investimento da Editora Abril, que resolvera apostar em um projeto ambicioso e inovador, que levava seus integrantes a passar semanas e até meses em viagens para cobrir pautas. Muitas vezes, a pauta surgia a partir de experiências anteriores ao projeto de REALIDADE: “Era tudo a partir não de teorias. Era a partir da própria vivência, porque eram pessoas, apesar de serem jovens, eram todos vividos, eram todas pessoas com vivência. E de ler, também” (NOWIKOW, 2013).

 

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