Outra reportagem relevante feita por Audálio Dantas e Jean Solari, com a colaboração de Carlos Moraes, foi O país do São Francisco, publicada em março de 1972, ocupando um total de 70 páginas da revista. Sobre essa reportagem, Dantas nos contou que tudo foi muito bem planejado, sendo que eles alugaram uma embarcação para ter autonomia durante a viagem. Nesse sentido, o percurso de ambos foi guiado não só pela correnteza, mas pela própria relação sensitiva que eles foram estabelecendo com o espaço, deixando aos acontecimentos o papel de levar a frente à construção da narrativa jornalística. Segundo Jean Solari, o projeto no Rio São Francisco foi ganhando importância e sendo ampliado no decorrer da sua realização: "O roteiro foi da nascente à foz, então nós fomos de carro até a Serra da Canastra, da Serra da Canastra até Pirapora fomos de carro também, depois de barco. Depois chegamos em Paulo Afonso fomos de carro até Piranhas, depois de barco até o mar. A ideia realmente seria todo o curso, da nascente à foz" (SOLARI, 2013).

   Outro aspecto que permanece no espírito da revista, mesmo após a saída da equipe fundadora, é a liberdade de participação dos fotógrafos em outras etapas da produção. Dantas lembra que

 

Os fotógrafos brigavam pelas fotos. Se, por acaso, o editor escolhesse uma foto que achava bonita, neste ou naquele sentido, o fotógrafo dizia, o Mamprin principalmente. Ele, quando ele ficava bravo, ele gaguejava: ‘eu quero aquela foto’. Aí ficava uma briga, porque na verdade a autoridade do editor tinha que prevalecer, no final. Mas isso não acontecia, porque discutia-se muito. E se chegava a um lugar comum, a um senso comum, melhor dizendo (DANTAS, 2013).

 

   Solari também lembra deste processo, e conta um pouco como ele era, "A gente participava, obviamente, às vezes, defendia uma foto, fazia com tanto sacrifício uma foto e o editor de arte não tomava nem conhecimento e gente no fim ficava aceitando porque ele tinha a visão do conjunto. Mas isso sempre valorizava o trabalho da gente" (SOLARI, 2013).

Ainda em território nordestino, Jean Solari fez juntamente com José Leal a reportagem Os rastejadores, publicada em 1971, na edição nº 69, que mostra homens que entram no sertão em busca de criminosos. Tendo como referência os relatos que obtivemos e ao observarmos as reportagens, notamos que a permanência dos fotógrafos na revista pode ser um fator importante para que a qualidade de sua fotografia tenha sobrevivido às turbulências políticas e editoriais. Mais que isso, nos parece que eles foram guardiões de certo espírito que ela manteve. Isso conserva a autoridade da imagem. Outro trabalho muito interessante feito por Jean Solari e Luis Edgar de Andrade foi Amazônia, publicada em julho de 1970. A reportagem relata aspectos do cotidiano de seus moradores, mas evita uma aproximação viciada e folclórica sobre a região. Nas fotografias são expressas situações representativas dos desafios da população para realizar tarefas que seriam simples, como ir à escola. Sob um olhar superficial, apenas cenas que já se naturalizaram pela repetição com a qual ocorrem; em uma interpretação mais profunda, evidências da intencionalidade de mostrar ao público leitor os “Brasis” que a conjuntura político-econômica estava gerando. No texto de Edgar de Andrade, tal objetivo também não se faz por via direta, cada indivíduo é apresentado por suas próprias falas, que conotam os contrastes encontrados em várias localidades, mostrando, inclusive, migrantes de outras regiões do país que buscaram melhores condições de vida nas promessas que permeiam o território amazônico.

Outro jornalista importante que passa pela revista no início dos anos 1970 é Raimundo Pereira, responsável pela publicação de alguns de seus maiores trunfos, os números especiais Amazônia (1971) e Cidades (1972). Amazônia proporcionou ensaios extraordinários e teve, no total, um saldo de 30 mil fotografias. Sobre a elaboração, Raimundo Pereira diz, “Foi um trabalho muito coletivo essa edição de imagens, e foi realmente um resultado espetacular, tinha muito material” (PEREIRA, 2013).

Fizeram parte desse número, George Love, Maureen Bisilliat, Amâncio Chiodi, Claudia Andujar, entre outros. Claudia é um exemplo da relação forte que a revista REALIDADE teve no encaminhamento da vida das pessoas que nela trabalharam. Em A última chance dos últimos guerreiros, de outubro de 1971, ela teve a oportunidade de conhecer uma realidade que, desde aquele momento, fez parte da sua vida, a dos Ianomâmis. Ela nos conta como foi:

 

Olha, essa oportunidade, realmente mudou a minha vida. É o que eu posso dizer. Quando saí da REALIDADE, do fotojornalismo... Até hoje to em contato com os Ianomâmi. Mas comecei a trabalhar lá, na maneira continua, em 1971, um ano depois da publicação da REALIDADE, no número da Amazônia. [...] Eu fui em 70 e a revista saiu em 71, e foi logo depois que eu decidi me dedicar a essa vida (ANDUJAR, 2013). 

 

A realização do número também foi uma experiência interessante, que durou quase um ano, envolvendo várias pessoas. Raimundo Pereira lembra de algumas passagens: "A edição, nós fizemos grandes reuniões aqui, na casa da Claudia, no apartamento dela, vendo as fotos, discutindo. A edição foi um trabalho grande, a edição demorou uns dois meses de trabalho, de selecionar, de ver. Ela e o George, eu acho que tiveram um grande papel, a Maureen também esteve nessas reuniões, que eu me lembre" (PEREIRA, 2013).

Jean Solari também se lembra do processo de escolha das imagens:

 

No final da Amazônia nós chegamos, ficamos no apartamento da Claudia Andujar e do George Love na Paulista [...] Tinha, se não me engano, vinte carrosséis, cada fotógrafo tinha feito uma seleção de seu material e a gente estava discutindo, escolhendo o material, o quê que ia ser, o quê que não ia ser. E a gente chegou e pegou alguns carrosséis e fomos até o Civita para mostrar. Depois do terceiro, ele falou não precisa ver mais nada, está ótimo. Ele cansou de ver tantas fotos. Realmente tinha fotos incríveis (SOLARI, 2013).

 

A aprovação de Civita foi fundamental, pois o custo do projeto foi muito alto, já que envolveu muitas pessoas, hospedagens, passagens e equipamentos. Mas mesmo com alguma desconfiança ao final a editora viu que havia sido um bom investimento: “REALIDADE Amazônia se esgotou em menos de uma semana, os trezentos mil exemplares. E até tinha uma discussão lá da Editora que nós tínhamos gasto muito dinheiro, fizemos não sei quantas mil fotos e é um absurdo, um desperdício e tal. E no final isso foi soterrado pelo sucesso extraordinário” (PEREIRA, 2013). Jean Solari, que participou do projeto até adoecer, retornando para São Paulo, recorda: "Era um grande projeto, um grande projeto editorial. Porque, por exemplo, a Amazônia naquela época nunca tinha sido feito um trabalho tão fundo, tão completo sobre a Amazônia. O que era a Amazônia? ‘Ah, é muito mato.’ Não sabia como a pessoa vivia lá, como era a vida na Amazônia" (SOLARI, 2013).

Estas reportagens em locais distantes sempre estiveram presentes na revista, como em 30 dias na ilusão do garimpo, de agosto de 1971, que tem texto de José Leal e fotos de Geraldo Guimarães. Para realizá-la, José Leal viveu como um garimpeiro durante um mês; o relato de sua experiência é acompanhado por fotografias que remetem aos deslumbramentos sofridos por esses personagens em suas jornadas de trabalho. Em Brasília, minha irmã, de abril de 1970, cujo trabalho fotográfico é de Luiz Humberto e texto de Jorge Andrade, emerge a sensibilidade do fotógrafo para compor cenas nas quais a imponência das construções da capital federal se faz pano de fundo para a leveza das ações de uma criança. É também por intermédio do personagem que o escritor faz referência à cidade. No caso de Luiz Humberto, as imagens são uma forma de dialogar com a cidade que o acolheu. Foi publicado, ainda, o número especial Nordeste (1972), comandado por Audálio Dantas, onde, para realizá-la, foi montada uma redação em um hotel em Recife, de onde os repórteres saíam em viagens na busca de assuntos.

Outro trabalho extremamente interessante feito na Amazônia foi o ensaio fotográfico de Walter Firmo, Amazônia, inverno e verão, publicado em janeiro de 1973. Ele lembra como a ideia surgiu, ao visitar uma região na qual familiares, por parte de pai, moravam, em Monte Alegre, próximo a Santarém. Sobre as fotografias, ele relata:

 

[...] eu fiz uma foto que tem uma família com água por aqui, e o dono da família, o chefe, empunhando [...] o quadro de Cristo. Cristo, né? E eu fiz mais outras fotos, e, ‘pô, isso é a cara da REALIDADE’. E eu era amigo do Mino Carta, que sempre gostou também de mim, sempre me respeitou muito, o meu trabalho. Aí quando cheguei a São Paulo, fui lá, falei, ele ficou muito contente em me ver. ‘E o quê que você trouxe? O quê que você quer? Tem alguma coisa...?’ Eu digo, ‘trouxe isso aqui pra você ver’. Quando ele viu aquilo, disse ‘nossa, notável!’. Aí ele ficou pensando assim e disse ‘pô, mas eu tenho uma ideia. Porque que tu agora não volta lá e faz o outro tempo? [...] agora você vai e faz o verão, com a mesma proposta, dos mesmos elementos. Nos mesmos lugares, as mesmas pessoas.’ Eu digo ‘perfeito!’ (FIRMO, 2013).

 

Firmo lembra que, mesmo na condição de freelancer, sentiu-se como um contratado, com passagens e hospedagens pagas. Sobre as fotografias realizadas na segunda viagem, ele comenta: "Foi, foi trabalhoso, porque eu tive que... Trabalhoso a questão de você remontar as peças meses depois, quando o rio baixou. Porque fazer a primeira parte foi uma coisa gratificante, certo? As coisas tão acontecendo, você imagina, você faz. O problema é você voltar lá depois e... aquele mesmo couro de cobra, com aquele mesmo cara, no mesmo lugar" (FIRMO, 2013).

Walter Firmo, o fotógrafo pioneiro na revista, também foi um dos últimos a participar de uma grande reportagem. Também como freelancer, no ano 1973, ele realizou com José Hamilton Ribeiro a matéria Uma estrada no paraíso terrestre?, sobre o pouco conhecido Pantanal.

 

A REALIDADE já numa ladeira de descida. [...] E o quê que aconteceu? Eu tava vivendo um processo de freelancer na sua plenitude. Setenta e três. O quê que aconteceu? Muito bem. Eu me encontrei como o menino lá em São Paulo, pegamos o avião pra Campo Grande e depois alugamos um carro e nos hospedamos num hotel nas proximidades de uma fazenda onde a gente ia fazer essa reportagem, próximo a Pirauana, eu acho. [...] (FIRMO, 2013).

 

Nessa viagem Firmo sofreu um acidente fruto da disparada de um cavalo, se machucou bastante, mas não concordou em voltar para São Paulo. Ele e Hamilton Ribeiro terminaram o trabalho. Essa última reportagem que abordamos carrega um pouco daquilo que mais nos chamou a atenção na revista, o comprometimento com a sua realização. Além disso, a possibilidade de fazê-la, com tempo amplo e condições mínimas para isso. Nessa sua rápida passagem, REALIDADE deixou um legado muito importante. Com relação a isso, Jean Solari, que trabalhou também na O Cruzeiro e em Manchete, mostra o orgulho que tem de ter feito parte dela: "[...] ela abriu muito, muito os olhos porque a gente conseguia mostrar o país de uma maneira diferente, mostrar as coisas de modo diferente. Eu acho que nossa contribuição foi essa, inclusive muita gente seguiu o nosso caminho, fiquei muito orgulhoso disso" (SOLARI, 2013).

Sobre a revista, Raimundo Pereira comenta acerca da relação entre a revista e o leitor: "A REALIDADE era o paraíso, assim de chegar no fim do mês e todo mundo correr pra banca pra ver esse prodígio de imagem e de texto. Uma coisa assim que, eu não sei, precisaria ver na história da imprensa mundial, o papel dela, como inovação, como talento desse trabalho e dessa equipe de primeira, um conjunto de gente!" (PEREIRA, 2013)

 

O encolhimento e o fim

 

Se isso é verdade, Solari relata também que depois de um tempo “No final, na época das últimas revistas, a gente tinha que mandar essa pauta para Brasília, eles seguravam quinze dias, aí você tinha uma semana pra fazer a matéria” (SOLARI, 2013). Nos últimos três anos, entre outubro de 1973 e o final definitivo, logo no início de 1976, a revista passou por mudanças mais significativas que nos demais anos. Ela teve suas dimensões reduzidas, mudou o teor de seu conteúdo e diagramação: passou a ser uma revista de variedades, não mais de reportagens.

De acordo com Faro (1999, p. 92), a decadência e as modificações de REALIDADE estavam atreladas a diversos motivos, entre eles o regime político e a ascensão dos novos meios de comunicação:

 

No caso específico da vida política brasileira, a situação da revista se agravava com o Estado autoritário, mas a necessidade de ser substituída já havia sido detectada, não porque fosse possível compará-la com uma revista ilustrada, mas porque sua proposta editorial esbarrava na dinâmica acelerada dos meios de comunicação eletrônicos, que chegavam para ficar.

 

No entanto, o fato a ser destacado é que a revista que deixou as bancas em 1976 não mais se assemelhava àquela que foi apresentada aos leitores em abril de 1966. Pode-se dizer que a única semelhança entre as duas estava na capa: a palavra realidade. Contudo, esta não era mais a mesma, uma vez que sua tipografia foi alterada e a palavra passou de REALIDADE a Realidade.

 

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